22/06/2009

Ases feras dos Estados Unidos

TopGunO filme Ases Indomáveis (Top Gun) protagonizado por Tom Cruise na pele de Pete Mitchell, apelidado de Maverick tornou-se um clássico. Lançado em 1986, o filme glorifica a guerra. E, é claro, mostrando o lado dos bonzinhos (norte-americanos) e dos malvados (grupo apátrida). Os bonzinhos são os pilotos de caça da marinha que estão fazendo o curso de aperfeiçoamento Top Gun. Eles são bonitos, esguios, usam roupas impecáveis e estão totalmente dispostos a servirem à pátria. É curioso quando o filme retrata os malvados da história. Esses pilotos “maus” não têm rostos, não têm nomes, não têm pátria, apenas usam um capacete escuro e são chamados pelo modelo do avião que utilizam. Eles são, simplesmente, inimigos.

Top Gun é um filme militar high-tech que visa exibir a excelência do controle, estrutura e dominação dos Estados Unidos. Exaltando o heroísmo militar, o filme já preparava o país, por meio do cinema, para a Guerra do Golfo. Os filmes, em geral, produzidos entre 1980 e 1990 desejavam induzir as pessoas a desviar o estereótipo do inimigo que antes era soviético para passar a ser o árabe. Qualquer árabe. A indeterminação tem a função de estigmatizar os árabes, criando episódios chamados de “terroristas”, feitos, apenas, para justificar as atitudes irreparáveis do país do Tio Sam. O importante era preparar o terreno para o que viria a seguir: as guerras norte-americanas contra o “terrorismo” árabe. A proposta era criar no subconsciente do povo um inimigo latente, perigoso, desmedido e diabólico que seria destruído (sempre) pelos heróis dos EUA. Isso porque o Oriente é apresentado como ultrapassado, inferior, subalterno e selvagem. Já o Ocidente mostra-se civilizado.

Prince (1993) documenta uma passagem muito interessante:

“as vaguezas das especificações geográficas e políticas, somada aos conflitos nacionais e culturais dramatizados nesses filmes, funcionam de tal modo que os traduzem em termos fortemente ideológicos, visto que o inimigo não ocupa nenhum território especificável nas coordenadas de um mapa, mas é um Outro indistinto, nebuloso e ameaçador, uma projeção das ansiedades políticas e culturais recortadas de sua base histórica e imputadas à regiões do mundo em termos genéricos, superficiais e essencialmente mitológicos”. (ibid.: 246)

No desfecho do filme, os sem-nome que atacaram os pilotos que faziam o curso eram seis enquanto os bonzinhos eram apenas dois aviões. Pela lógica de Hollywood, claro que eles conseguiriam acabar com o inimigo. Só Tom Cruise conseguiu abater quatro desses aviões, além de se unir com seu arquiinimigo no momento dos ataques. Os outros dois? Ah, esses fugiram, evidente. Os EUA destroem e afugentam os malfeitores.

O filme instiga o espectador a torcer pelo mocinho (Maverick) e por sua amada Charlotte, além de incentivar que, na hora do conflito final, a plateia torça para que os top guns consigam acertar os caças “inimigos”, ou seja, matar pessoas. Isso acontece porque culturalmente temos a necessidade de rotular comportamentos e, mais que isso, os filmes hollywoodianos produziram e ainda produzem a realidade. Os extraterrestres, encontrados em outras obras, falam inglês; a Disneylândia é “o melhor lugar do mundo”; o fast-food “é a comida mais saborosa”; enfim, tudo o que é relacionado à cultura norte-americana é glamurizada e cria preconceitos e predisposições acerca dos mais diversos assuntos.

21/06/2009

Chorões do DF já podem dar gargalhadas

A ampliação do atual Clube do Choro, entre outros caminhos, chegará também à Universidade de Brasília

 

 

O Clube do Choro de Brasília, fundado em 1977 por servidores públicos cariocas, poderia ter sua própria biografia. Não é gente, mas tem bastante história para contar. Não faltariam casos para preencher páginas e mais páginas de uma obra que contaria não só a sua história, isoladamente, mas o relato da própria construção de Brasília, sob o ponto de vista cultural. “É um absurdo, Brasília nunca teve uma escola de Choro, rapaz”, aponta o presidente do Clube do Choro, Reco do Bandolim.

Henrique Lima Santos Filho, jornalista e músico, foi carinhosamente apelidado pela família e, posteriormente, por todos como “Reco do Bandolim”. Baiano por natureza e brasiliense de alma e coração, que deu seus primeiros acordes numa guitarra interpretando clássicos do rock, descobriu o bandolim, instrumento com formato de pêra e costas abauladas, que possui 8 cordas agrupadas duas a duas, depois de ouvir Jacob Bitencourt e de ver Armandinho – cantor, instrumentista e compositor baiano – tocar. Quando assumiu a presidência do Clube do Choro, em 1993, o instrumentista encontrou o espaço, que na época era o vestiário do Centro de Convenções de Brasília, totalmente abandonado e habitado por mendigos. O seu primeiro trabalho, portanto, foi recuperar o local e transformá-lo numa escola de choro viva, tomando como exemplo o padrão das escolas de jazz e blues norte-americanas.

As dificuldades, no entanto, não pararam por aí. Por muitas vezes, o atual presidente investiu recursos próprios e tocou com o seu grupo insistentemente para que o clube não fosse despejado pelo Governo do Distrito Federal (GDF). Por esse motivo,  Reco tornou-se a principal referência pela existência do Clube do Choro de Brasília.

No ano de 1995, Reco do Bandolim e Raphael Rabello, violonista brasileiro conhecido internacionalmente, iniciaram a elaboração do novo projeto do Clube do Choro. Infelizmente, Rabello não pôde dar continuidade ao trabalho já que, no mesmo ano, faleceu precocemente aos 32 anos de idade, vítima de contaminação do vírus HIV. Após muita dificuldade junto a órgãos do Ministério da Cultura, Reco do Bandolim, com o apoio de outros entusiastas, conseguiu em 1997, a aprovação do projeto. A Escola de Choro recebeu o nome de Raphael Rabello como forma de homenagem ao amigo e músico falecido.

Atualmente com 514 alunos, a Escola de Choro molda o seu tipo de ensino a partir do estudo de clássicos do gênero, tais como: Pixinguinha, Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim, entre outros. Nesse sentido, a proposta é fazer com que os alunos se sintam conhecedores das raízes da verdadeira música brasileira. “O choro aqui é bem mais reconhecido do que no próprio Rio de Janeiro”, orgulha-se o presidente. 

O Clube do Choro da capital federal terá nova cara a partir do segundo semestre de 2009. O projeto assinado por Oscar Niemeyer prevê uma ampliação tanto das salas de aula quanto do espaço onde acontecem as apresentações e se chamará “Espaço Cultural do Choro”. O lugar pretende preservar o clima intimista de hoje, apesar de o espaço de shows ser ampliado de 300 para 450 lugares. De acordo com Reco, o palco baixo e o público próximo aos artistas da cidade “são a cara do clube” e isso será conservado.

Antes do início das apresentações, quem entra no Clube do Choro acredita que assistirá ao show com um pouco de dificuldade, como geralmente acontece por conta das conversas descontraídas das pessoas e de celulares que atrapalham a apreciação. Porém, quando Reco do Bandolim sobe ao palco, o silêncio se torna unânime. Ele faz questão de abrir os shows, o que torna a relação de proximidade entre o presidente da casa e o público muito forte. Reco pede silêncio nas aberturas e ressalta que “o prato principal do Clube do Choro é a música”. O público entende a proposta, mostra-se educado e aproveita cada segundo do ambiente aconchegante. Segundo o presidente, o Clube do Choro de Brasília é o único lugar que quando a música começa as pessoas se silenciam. A atenção da plateia realmente é voltada às apresentações. Não podia ser diferente, já que os banners, painéis e pinturas temáticas nas paredes valorizam a idéia intimista do ambiente. Mais que isso, o serviço de alimentação oferecido, composto pela mistura entre tira-gostos, caldos e cerveja, junto às mesas de madeira e pouca luz, compõem um clima aconchegante aos apreciadores dos chorões.

Todavia, esse clima familiar é sentido apenas no espaço reservado aos shows. As salas de aula são precárias e dificultam o aprendizado dos alunos. Segundo Caio Paiva, ex-aluno da escola, “os grandes problemas da estrutura atual são a precariedade do espaço-físico e a grande proximidade entre as salas de aula, o que dificulta a concentração”. Para ele, o que prende os alunos às aulas é a qualidade dos professores, o método de ensino, a troca de experiência entre as pessoas e a expectativa dos benefícios que a nova sede poderá trazer. Apesar dos problemas estruturais, o seu desligamento da escola aconteceu por falta de tempo. Mas ele confessa, “eu me sentiria mais motivado a arranjar tempo se tivéssemos uma estrutura melhor”. Em contrapartida, o ex-aluno destaca que uma vez por mês (aos sábados, impreterivelmente) os alunos fazem uma roda de choro. Nesse dia todos se reúnem para tocarem juntos e fazem uma roda com todos os instrumentos. “Esse é um momento de puro aprendizado e confraternização entre alunos e professores. A união entre as pessoas faz com que o clima seja de puro entusiasmo e alegria”, diz. 

As obras que começaram em dezembro de 2008 darão lugar à nova sede, o Espaço Cultural do Choro, localizado no Setor de Difusão Cultural, no Eixo Monumental, ao lado de onde funciona o atual Clube do Choro. De acordo com Reco do Bandolim, o novo espaço terá o dobro de professores e alunos. “Temos, muitas vezes, que recusar inscrições porque o espaço é insuficiente”, afirma. Envolvido há anos com o Choro, Reco idealiza mudanças para a instituição, mas não quer perder a identidade do estabelecimento. “Nós procuramos abrir espaço para os talentos desconhecidos também. Eles mandam e-mails, vídeos e cd’s, nós selecionamos e cedemos o ambiente. Eu me sinto na responsabilidade de abrir espaço para quem não está na mídia”, ressalta. 

O engenheiro civil Alexandre Betioli, responsável pela construção da nova sede do Clube do Choro, afirma que a obra está dentro do prazo – que segue até outubro deste ano. Segundo ele, o atual governador do DF, José Roberto Arruda, havia feito um pedido sobre a possibilidade de terminar a obra antes da data prevista, para que o novo espaço musical fosse inaugurado junto ao aniversário de 49 anos de Brasília, em abril de 2009. No entanto, não foi possível. De acordo com Betioli, “imprevistos encarecem e atrasam a obra”. “Tivemos problemas com a locação de terreno, interferências de árvores que não podiam ser retiradas, imprevistos como cisternas e até uma pista de dança que nós não esperávamos que existisse”, completa. De todo modo, a inauguração do espaço deverá acontecer no próximo aniversário de Brasília, em 2010, quando a cidade completará 50 anos.

Pelo fato de o Clube do Choro ser um local familiar, existe o medo de que com a nova sede, maior e melhor dividida, o espaço se transforme em uma sala de espetáculos. Caio Paiva, no entanto, não acredita nessa possibilidade. “A nova sede só melhorará a relação entre aluno e professor. O que faz o clube do choro ser um local intimista são as pessoas e não a estrutura”, comenta.

O espaço que atualmente é utilizado como sala de aula será transformado em luteria, ou seja, local destinado à fabricação e conserto de instrumentos. Dessa maneira, o ensino será ainda mais completo, tendo em vista que o aluno terá a oportunidade de acompanhar o processo do início ao fim – da fabricação à especialização.

A grande novidade é que o Clube do Choro já possui um acordo firmado com a Universidade de Brasília que visa inaugurar o primeiro Curso Superior em Choro do Brasil (Faculdade de Música – UnB). De acordo com Reco, “as conversas” já estão bem adiantadas. A notícia beneficiará as pessoas que desejam obter conhecimento mais aprofundado sobre o estilo musical, já que contará com cerca de quatro semestres cursados no próprio Espaço Cultural do Choro, com extensão na UnB.

“Os maiores músicos do Brasil pedem para tocar aqui”, envaidece-se Reco do Bandolim. Por outro lado, o mais encantador é que músicos pouco conhecidos da capital do rock despontam tocando chorinho. Como exemplo de sucesso, o presidente destaca o Trio Cai Dentro, formado pelos jovens Henrique Neto (violão de sete cordas), Rafael dos Anjos (violão de seis cordas) e Márcio Marinho (cavaquinho), que também são professores da escola. Instituições sérias que ensinam choro modificam a imagem do país. “Em qualquer lugar que você chega, as pessoas babam pela música brasileira”, declara.

Uma biografia que retratasse com fidelidade o que é o Clube do Choro de Brasília certamente teria em seu conteúdo várias passagens de sucesso que a mídia brasileira, até então, não enxergou como talento em potencial. “O marketing é muito perverso. Existe muito lixo musical produzido que ocupa o espaço de pessoas que têm talento”, conclui aquele que transformou um velho vestiário em um ambiente altamente criativo.

Para maiores esclarecimentos, ligue: (61) 3225-2761
Para conhecer o regulamento da Escola de Choro Raphael Rabello e obter informações sobre os cursos oferecidos, acesse: www.clubedochoro.com.br

  

Planta baixa do Espaço Cultural do Choro.

Planta baixa do Espaço Cultural do Choro.

 
Salas de aula do atual Clube do Choro.

Salas de aula do atual Clube do Choro.

 

Andamento das obras do Espaço Cultural do Choro em junho/2009.

Andamento das obras do Espaço Cultural do Choro em junho/2009.

 

Andamento das obras do Espaço Cultural do Choro em junho/2009.

Andamento das obras do Espaço Cultural do Choro em junho/2009.

 

A arquitetura da nova sede favorecerá a acústica e distribuirá melhor o espaço.

A arquitetura da nova sede favorecerá a acústica e distribuirá melhor o espaço.

06/12/2008

Muitos Carnavais

discurso-caetano1

Em sete de agosto de 1942 nasceu em Santo Amaro da Purificação, cidade próxima a Salvador, Caetano Emanuel Vianna Telles Velloso que, por descuido do escrivão perdeu o “n” dobrado e os “l”s repetidos de seu nome. Filho do funcionário público José Telles Velloso e de Claudionor Vianna Telles Velloso (carinhosamente conhecida por Dona Canô), na infância já mostrava interesse pela arte e pontos de macumba e também tinha adoração pelos sambas de roda e pelo “rei do baião” Luiz Gonzaga. Em 1956, Caetano passou uma temporada no Rio de Janeiro, onde freqüentou a Rádio Nacional, conhecida por ser o palco dos grandes ídolos musicais brasileiros. Após mudar-se, em 1960, para Salvador, Caetano Veloso se encantou com o cinema, teatro e a Bossa Nova, principalmente após conhecer João Gilberto. Nos anos 60 conheceu também Gilberto Gil, Gal Costa e Tom Zé, parceiros do início de sua carreira artística e de sua relevância como parte da história do Brasil.

Em 1968, Caetano Veloso engajou o Movimento Tropicalista e lançou o LP “Tropicália ou Panis et Circensis” que contou com a participação de Nara Leão, Capinam, Rogério Duprat, Torquato Neto, Gilberto Gil, Os Mutantes e Tom Zé. O hit do LP “Tropicália” marcou o movimento que tinha como objetivo aplicar a antropofagia do modernista Oswald de Andrade, adicionando o som de guitarras elétricas e de composições de canções mais complexas do que o estilo do Trio Ternurinha da jovem guarda de Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Vanderléia.

Caetano fez política durante toda a sua vida, fosse por meio de discursos ou canções. Ainda no ano de 1968, o compositor de “Alegria, Alegria” foi vaiado e hostilizado pela platéia ao cantar a música “É proibido proibir” no III Festival Internacional da Canção, em SP. Caetano havia feito a música por insistência de seu empresário e logo em seguida desgostou de sua composição. Isso o instigou a fazer o discurso mais brilhante de sua vida, que vale a pena ser reproduzido:

“Mas é isso que é a juventude diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir este ano uma música, um tipo de música, que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado; são a mesma juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem! Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada! Hoje não tem Fernando Pessoa! Eu hoje vim dizer aqui que quem teve coragem de assumir a estrutura do festival, não com o medo que o Sr. Chico de Assis pediu, mas com a coragem de assumir esta estrutura e fazê-la explodir foi Gilberto Gil e fui eu. Vocês estão por fora! Vocês não dão pra entender. Mas que juventude é essa, que juventude é essa? Vocês jamais contarão a ninguém! Vocês são iguais sabe a quem? – tem som no microfone? – Àqueles que foram no Roda-viva e espancaram os atores. Vocês não diferem em nada deles. O problema é o seguinte: vocês estão querendo policiar a música brasileira [...]. Eu vim aqui pra acabar com isso. Eu quero dizer ao júri: me desclassifique! Eu não tenho nada a ver com isso! Gilberto Gil está comigo para nós acabarmos com todo o festival e com toda imbecilidade que reina no Brasil. [...] Nós, eu e ele, tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas, e vocês? E vocês? O júri é muito simpático, mas é incompetente. Deus está solto!”

O discurso memorável de Caetano Veloso foi mais uma de suas atitudes de tentativa de conscientização dos jovens para que entendessem o que acontecia realmente com o Brasil sob o poder do governo militar da época.

Em dezembro do mesmo ano, Caetano Veloso e Gilberto Gil sentiram, literalmente, o poder do Ato Institucional nº. 5 e tiveram suas cabeças raspadas logo após serem mandados para um quartel sob o pretexto de terem desrespeitado o Hino Nacional. Apesar da intensificação da repressão da ditadura militar, Caetano continuou produzindo música. Em julho do ano seguinte, foi exilado na Inglaterra, mas nada conteve seu instinto de quebra de paradigmas, então lançou um LP mesmo longe da Bahia e, mais uma vez, mostrou-se forte em suas convicções. Em 72 ambos baianos voltam para o Brasil.

Em 1972, o cantor e compositor baiano teve uma maior proximidade com Chico Buarque de Hollanda – outro personagem engajado pela mudança e que também possuía canções com objetivos semelhantes aos de Caetano –, o que apurou ainda mais o estilo do baiano. Com a proximidade da redemocratização do país, afrouxaram-se lentamente as rédeas da ditadura militar. O cantor foi ganhando espaço em programas de TV e passando a ter menos desconforto ao lançar seus discos.

Caetano Veloso deu aos jovens de 1968 uma injeção de jovialidade e revolução comportamental. Por meio de suas palavras ásperas e letras quase nunca parnasianas, ele contribuiu muito no campo social, por não ter perdido o foco de ir contra a maré. Além disso, atuou intensamente na revolução musical proposta pelo Tropicalismo e pela mudança cultural, que encorajou tantos outros personagens do cenário triste e cinzento da ditadura militar.

Referência bibliográfica:

  • ZUENIR, Carlos Ventura. 1968: O ano que não terminou. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1988, 159 páginas.
  • VELOSO, Caetano. Verdade Tropical. São Paulo, Editoria Companhia das Letras, 1997, 524 páginas
  • www.caetanoveloso.com.br
  • www.gafieiras.com.br
  • www.obraemprogresso.com.br
  • pt.wikipedia.org

06/12/2008

Aprendiz

O trânsito de informações sempre se fez essencial entre pessoas. O surgimento do jornal, em 1455, materializou essa necessidade. O conhecimento difundido nesta modalidade de aprendizagem foi um marco na história, mas com ele nasceu também o dilema entre a verdade plena e os fatos distorcidos. De fato, a forma de transmitir as informações por meio do jornal mudou ao longo do tempo, ao mesmo tempo em que a responsabilidade jornalística crescia e aparecia.

Sabe-se que, por muitas vezes, o jornalismo oscilou entre o ético e o anti-ético, dependendo das circunstâncias e do teor das reportagens. Com isso, além de diversos furos, houve também várias injustiças semeadas como verdades. Os princípios éticos devem reger o bom jornalista, pois ele é o porta-voz da informação correta e confiável.

Dois casos de irresponsabilidade jornalística – um na década de 30 e outro em 90 tornaram-se referência para os estudantes de jornalismo, como exemplo do que não se deve fazer na profissão. A situação ocorrida em 1938 ficou conhecida como “O caso Welles”. Orson Welles, 23 anos, radialista,  dramatizou o livro “A Guerra dos Mundos”, de H. G. Wells, em seu programa na rádio BBC. Com malícia, Welles fez da história contada um episódio verossímel ao ponto de 1,2 milhão de norte-americanos serem levados à paranóia por acreditarem que extraterrestres realmente estavam atacando o planeta Terra. Após assumir que o formato jornalístico e consistente do programa havia sido concretizado para alertar sobre a responsabilidade que está nas mãos de quem lida com o público, ele respondeu a processos.

Já na década de 90, o protagonista da busca sem limites pela fama profissional foi Stephen Glass. O jovem jornalista de 24 anos não media riscos para escrever matérias polêmicas. Glass trabalhava em uma revista prestigiada, “The New Republic”. Após seu artigo sobre hackers ter sido descoberto como fraude, mais  26 das 41 reportagens do rapaz foram desmascaradas como invenções. Glass foi demitido e, apesar de perder a credibilidade, escreveu, anos depois, um livro que fez muito sucesso, baseado em sua própria história.

Por meio de fatos como esses é que se deve formar e educar os estudantes de jornalismo. Esses casos servem como exemplo do que não se deve fazer quando se tem tamanha responsabilidade social nas mãos. Nem sempre é fácil harmonizar as situações e ser totalmente imparcial, mas é dever do joranalista ter afinco para atingir essa meta sempre. 

03/12/2008

Atalho de sucesso

Christopher Vogler obteve sucesso arrebatador em seu livro “A Jornada do Escritor” após perceber intuitivamente que as histórias que lia acompanhavam um determinado padrão satisfatório quando do seu desfecho. Foi um encontro memorável na Escola de Cinema University of Southern California entre a intuição de Vogler e a obra “O Herói de Mil Faces”, do antropólogo Joseph Campbell. O livro do mitólogo havia iluminado as percepções de Vogler. “O Herói de Mil Faces foi uma tábua de salvação quando comecei a trabalhar como analista de histórias para os grandes estúdios de cinema. Sem a orientação de Campbell e da mitologia, eu estaria perdido”, escreveu.

Vogler trabalhou nos estúdios da Walt Disney no final dos anos 80, período de crise para a empresa, já que os últimos filmes lançados, como “O Ratinho Detetive” (1986) e “Oliver!” (1988), foram fracassos de bilheteria, com números bem distantes dos lucrativos filmes “Dumbo” e “Bambi”. Desesperadas com o insucesso promovido pelo desinteresse do público, as equipes da Walt Disney precisavam de uma injeção de criatividade e inovação para a retomada do poder grandioso que a corporação vinha conquistando. Vogler resolveu criar uma lista de erros que fadavam um filme da Disney ao desastre. Ele montou um texto baseado no monomito estudado profundamente por seu então ídolo, Joseph Campbell. Anos depois, o texto de sete páginas que explicava como deveria ser a estrutura aplicada do “ciclo do herói” tornou-se o guia prático para os aprendizes e experientes produtores de filmes.

“A Jornada do Escritor” tem a finalidade de mostrar que o herói é um personagem muito além de alguém com super-poderes: é a personalidade que sai de sua vida comum e parte para o desconhecido. Há várias fases para que o ciclo da jornada de um herói seja completo na percepção de quem lê ou ouve uma história. O livro é um mapeamento dos 12 estágios do herói, não para formar uma maneira congelada e fixa de contar os fatos, mas para dar as diretrizes de como fazer uma história que prenda a atenção e atenda às expectativas inconscientes do apreciador da obra.

O modelo da jornada de um personagem-herói é dividido em intitulações, que são os próprios estágios do herói: Mundo Comum; Chamado à Aventura; Recusa do Chamado; Encontro com o Mentor; Travessia do Primeiro Limiar; Testes, Aliados, Inimigos; Aproximação da Caverna Oculta; Provação, Recompensa (Apanhando a Espada); Caminho de Volta; Ressurreição e Retorno com o Elixir.

“A Jornada do Herói é uma armação, um esqueleto, que deve ser preenchido com os detalhes e surpresas de cada história individual. A estrutura não deve chamar a atenção, nem deve ser seguida com rigidez demais. A ordem dos estágios que citamos aqui é apenas uma das variações possíveis. Alguns podem ser eliminados, outros podem ser acrescentados”, aponta o autor.

O livro é inteligente e interessante por satisfazer a demanda do subconsciente do observador de uma história. Nota-se que o ser humano, ao perceber uma narrativa, encaixa os personagens em rótulos – arquétipos – que são basicamente: o Herói, o Mentor, o Guardião de Limiar, o Arauto, o Camaleão, a Sombra e o Pícaro. De forma didática, Vogler se propõe a desvendar a fascinação das pessoas pelo o esqueleto do monomito que se repete em pelo menos 90% dos filmes e histórias produzidas.

Referência bibliográfica
· VOGLER, Christopher. Título original: The Writer’s Journey – 2ª edition – Publicado originalmente por Michael Wiese Productions, 11288 Ventura Blvd, 621 Studio City, CA 91604.
A Jornada do Escritor: estruturas míticas para escritores – Tradução de Ana Maria Machado – 2. ed. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, 181 páginas.

01/12/2008

Responsabilidade Jornalística

A grande dificuldade do jornalismo é saber usar a lei e o bom-senso para o bem comum. Vejamos este caso:

O seu jornal tem a informação de que uma auto-escola consegue a carteira de motorista para alguns clientes que, mesmo não estando adequadamente habilitados para dirigir carros, paguem uma taxa extra. A informação é de que parte dessa taxa extra será dada ao examinador da repartição de trânsito para aprovar o cliente e lhe conceder a licença para dirigir.

É correto o jornalista utilizar falsa identidade e/ou publicar uma denúncia mesmo que possa prejudicar outras pessoas?

O caso deve ser denunciado porque o jornalista deve sempre prezar pela ética em nome do bem maior. A doutrina da falsa identidade no jornalismo justifica o “pequeno delito” em nome da denúncia do “grande delito”, quando não há outra maneira de coletar informações de um assunto importante. Repórteres e meios de comunicação que agem assim não têm a intenção de cometer crimes ou prejudicar, mas mostrar os erros do sistema e usar de seu amplo poder comunicativo para contribuir com a sociedade, afim de que as falhas sejam corrigidas.

01/12/2008

Teto de vidro

O filme “O Preço de Uma Verdade” (Shattered Glass), dirigido por Billy Ray e lançado em 2003, foi produzido baseado em fatos reais e tem como tema principal a responsabilidade jornalística. O conflito de interesses é apresentado de forma compreensível e clara graças à história do jornalista Stephen Glass. Com o elenco formado por Hayden Christensen (Stephen Glass), Peter Sarsgaard (Charles Lane), Chloë Sevigny (Caitlin Avey), Rosario Daws on (Andy Fox), o longa-metragem conquistou uma indicação ao Globo de Ouro e quatro indicações ao Independent Spirit Awards.

Stephen Glass foi um jovem de 20 anos que conseguiu um invejável emprego na revista “The New Republic”, com mais de 80 mil leitores, considerada a revista de bordo do avião presidencial. Publicada pela primeira vez em 1914, a revista era extremamente elitizada e ligada à política. Em 1998 havia 15 redatores, tendo como mais recente integrante o jovem Glass que escreveu para a revista durante três anos – entre 1995 e 1998.

Ele era engraçado e cativante com as pessoas que formavam a equipe e, por isso tinha, até então, credibilidade no trabalho que exercia. A maioria de suas matérias eram polêmicas, pois a adversidade dos fatos e dados tornou-se de praxe quando se tratava do trabalho do jornalista. Apesar dos horários inconstantes de trabalho, o que movia o jovem era o desejo pela fama, já que a revista era lida por legisladores e presidentes. Com essa ambição aguda, Glass forjou uma matéria sobre uma conferência de jovens republicanos, acusando-os de envolvimento com prostitutas e bebida alcoólica descontrolada. O artigo publicado atiçou o editor da revista, Michael Kelly, que procurou saber se as informações eram realmente consistentes. Algumas pessoas já haviam contatado a redação para fazer reclamações relacionadas à inconsistência de fatos.

Stephen Glass produziu, posteriormente, um artigo que mais tarde levaria ao fim sua reputação e credibilidade. O artigo era sobre um garoto chamado Ian Restil, o maior hacker de computadores já visto. Restil teria entrado no banco de dados de uma empresa famosa, a Jukt Micronics, publicando o salário dos funcionários e fotos pornográficas no site. A empresa teria considerado mais prático comprar o garoto por um valor alto do que expor a marca judicialmente. Glass espalhou a informação e completou, ainda, que 21 estados estariam analisando a chamada “Lei de Segurança dos Computadores”, que proibiria negociações entre hackers e corporações invadidas.

Após pesquisas profundas realizadas pelo jornalista Adam Penenberg, constatou-se que as pessoas, telefones, locais, datas e acontecimentos envolvidos em 27 dos 41 artigos assinados por Glass jamais existiram. Inclusive a matéria da libertinagem da convenção dos conservadores e da conferência dos hackers.

O furo de reportagem que desmascarou Stephen Glass foi considerado um marco na história do jornalismo digital. A revista “The New Republic” se desculpou e confirmou aos leitores que várias reportagens feitas pelo jovem jornalista haviam sido inventadas. Após ser demitido, formou-se em direito e passou a morar em Nova York, escrevendo mais tarde um livro baseado em sua própria história.

25/11/2008

Explosão da bomba moral de 68

Os estilhaços de uma geração guerreira

 

Zuenir Carlos Ventura, escritor, filósofo, jornalista e bom mineiro, acertou em cheio ao escrever o livro “1968: O ano que não terminou”. Movido pelas concepções enfurecidas da juventude da década de 60, Ventura se afastou do Jornal do Brasil – no ano de 1988 – por dez meses, para escrever o best-seller que contabilizou mais de 200 mil exemplares. Posteriormente, a obra foi fonte inspiradora para a minissérie “Anos rebeldes”, de Gilberto Braga e Sérgio Marques, na Rede Globo.

Dividido em quatro partes, o livro espaça as fases do que foi o memorável ano de 1968. Em 1967, além de haver a troca de nomes de ditadores militares – de Castelo Branco para Costa e Silva – instaurou-se um sentimento de insatisfação que se alojou no coração dos jovens da época. A inflação de 40% ao ano, os sindicatos sob intervenção, o arrocho salarial e a ameaça incansável de censura estimulavam ainda mais a efervescência de uma agonia que só tinha um remédio: a mudança regada pela revolução.

O volume se inicia com uma festa de réveillon promovida pelo casal Luís e Heloísa Buarque de Hollanda, que tiveram como convidados intelectuais, Gláuber Rocha, Caetano Veloso e Geraldo Vandré. A reunião de dezenas de intelectuais na festa rendeu discussões importantes sobre a libertação do comportamento moral e da política. A prática liberal era desejada quando do uso de palavrões em teatros e livros, do rompimento da monogamia, do misticismo da virgindade e fidelidade, da quebra da estrutura repressiva da família, da aceitação da homossexualidade e da divulgação dos anticoncepcionais, sempre a favor da experimentação existencial. Além disso, a criação dos antitabus e a intelectualização dos jovens foram aspectos extremamente importantes para os rumos que direcionaram a população brasileira para ser o que é hoje.

Um dos pontos que torna a leitura interessante é o que se refere à percepção da discrepância cultural que existe entre os que foram filhos de 68 e os jovens da atualidade. A sintonia de inquietação e anseios da mocidade de 68 estava formando hierarquia, objetivos, ideologia e linguagem próprias. A televisão, por sua vez, não tinha importância cultural relevante, vista a influência cultural dos livros. Os ídolos da época eram Chico Buarque de Hollanda, Caetano Veloso, Roberto Carlos, Gilberto Gil e os britânicos de ouro, The Beatles. Além disso, a juventude enlouquecia nas livrarias à procura das obras do filósofo Marcuse. De fato, o aprendizado dava-se mais nas ruas do que nas próprias universidades, com os jovens aprendendo a todo o momento a fazer política.

A cultura autoritária que se impôs para os jovens entre 68 e 75 os fez tomar duas posições: uns acreditavam que só haveria mudança pegando em armas, outros confiavam na mudança através da organização. Os reformistas, os revolucionários e os autoritários brigaram entre si e dividiram não só os estudantes, mas a sociedade como um todo.

 Ventura também narra sobre as duas maiores lideranças estudantis. Uma comandada por Vladimir Palmeira, mais radical e presidente da UME, e a outra liderada por Luís Travassos, mais moderado e presidente da UNE. Muitas foram as brigas entre os estudantes e a ditadura “camuflada”. Várias peças teatrais, como “Roda-viva”, de José Celso Martinez– inspirada na canção de Chico Buarque de Hollanda – foram criticadas por serem um tapa na cara dos espectadores, já que o objetivo era conscientizar pelo choque sobre o que realmente estava acontecendo na política e cultura do país. “O objetivo é abrir uma série de Vietnans no campo da cultura, uma guerra contra a cultura oficial, de consumo fácil”, afirmou Celso.

A morte por militares do estudante Edson Luís Lima Souto foi o estopim para a rebeldia incessante dos movimentos estudantis. O envolvimento dos universitários com o acontecimento ocorreu da maneira mais comovente possível. “Foi o espetáculo mais impressionante que eu vi em minha vida”, declarou Vladimir. A repercussão dos acontecimentos políticos, ideológicos e culturais desencadeou inúmeros conflitos recheados de vítimas fatais e feridos entre militares e estudantes.

Zuenir Ventura relata, com detalhes, um dos fatos mais arrebatadores e sinistros do ano 1968: a instauração do AI-5. A partir daquele momento, a ditadura se escancarou e mostrou-se ainda mais mórbida. Estranhamente, o então presidente Costa e Silva declarou: “Eu confesso que é com verdadeira violência aos meus princípios e idéias que adoto uma atitude como esta”. O Ato Institucional nº 5 anunciava o fechamento do Congresso Nacional por tempo indeterminado, ao mesmo tempo em que as garantias constitucionais seriam interrompidas e, por fim, sem a estabilidade, todos estariam vulneráveis a serem cassados, demitidos e transferidos. Suspendia-se também o habeas corpus, que permitia a qualquer preso acusado de delito político em regime de incomunicabilidade permanecer por mais tempo que o limite constitucional. A censura das rádios, revistas, peças teatrais, músicas, dos jornais e livros formaram um índex de proibições. Torturas, mortes, pessoas feridas e estupros também se tornaram constantes no regime do AI-5 no Brasil. “1968 entrava para a história, senão como exemplo, pelo menos como lição”, conclui Zuenir Ventura.

 

 

 

Referência bibliográfica

·                                      ZUENIR, Carlos Ventura. 1968: O ano que não terminou. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1988, 159 páginas.

 

 

 

21/11/2008

Eu sou o herói

1. Outro
2. Minhas Lágrimas
3. Rocks
4. Deusa Urbana
5. Waly Salomão
6. Não Me Arrependo
7. Musa Híbrida
8. Odeio
9. Homem
10. Porquê?
11. Um Sonho
12. O Herói

O disco “Cê”, lançado em 2006, de Caetano Veloso não soou como os últimos cd’s do cantor. O formato das letras curtas e difíceis, gritos abafados – como em Herói – relembram a genialidade crítica de Caetano em 1968. Apesar da complexidade do disco, o impacto não chegou nem perto à irritabilidade positiva que causava nos jovens há 40 anos.

“Não é um disco fácil. É preciso enfrentar muita coisa para ouvi-lo”, desafia Caetano

Mas, por outro lado, fica evidente nas 12 faixas do último cd do cantor e compositor, que ele devolve o rock com letras ásperas, ácidas, nervosas e quentes. O hino aos homens – na canção Homem – traz as palavras arranjadas à la Caetano Veloso, com citação de “orgasmos múltiplos” e outras expressões não-parnasianas que viraram caractéristica de seu trabalho.

O Herói
Caetano Veloso

Nasci num lugar que virou favela
cresci num lugar que já era
mas cresci à vera
fiquei gigante, valente, inteligente
por um triz não sou bandido
sempre quis tudo o que desmente esse país
encardido
descobri cedo que o caminho
não era subir num pódio mundial
e virar um rico olímpico e sozinho
mas fomentar aqui o ódio racial
a separação nítida entre as raças
um olho na bíblia, outro na pistola
encher os corações e encher as praças
com meu guevara e minha coca-cola
não quero jogar bola pra esses ratos
já fui mulato, eu sou uma legião de ex-mulatos
quero ser negro 100%, americano,
sul-africano, tudo menos o santo
que a brisa do brasil briga e balança
e no entanto, durante a dança
depois do fim do medo e da esperança
depois de arrebanhar o marginal, a puta
o evangélico e o policial
vi que o meu desenho de mim
é tal e qual
o personagem pra quem eu cria que sempre
olharia
com desdém total
mas não é assim comigo.
é como em plena glória espiritual
que digo:
eu sou o homem cordial
que vim para instaurar a democracia racial
eu sou o homem cordial
que vim para afirmar a democracia racial

eu sou o herói
só deus e eu sabemos como dói

21/11/2008

Qualquer coisa é mesma coisa

Essa é a minha voz, é minha vez que diz. Há tanta secura no agreste, que dá dó e peste de tanto esperar. Ah, essa chuva que não chega para encher de esperança esse meu coração. As manhãs são de cetim e as noites de sertão. Parece que só eu sei o que falta. Não é suprimento, nem o perecível. O que não da pé é a tua mão que às vezes não me salva e me afoga em sonhos paralelos. Só queria inundar o meu peito de vida e vontade de ser, fielmente, o que um dia sonhei em dividir, como bloquinhos de madeira esperando construção.