A ampliação do atual Clube do Choro, entre outros caminhos, chegará também à Universidade de Brasília
O Clube do Choro de Brasília, fundado em 1977 por servidores públicos cariocas, poderia ter sua própria biografia. Não é gente, mas tem bastante história para contar. Não faltariam casos para preencher páginas e mais páginas de uma obra que contaria não só a sua história, isoladamente, mas o relato da própria construção de Brasília, sob o ponto de vista cultural. “É um absurdo, Brasília nunca teve uma escola de Choro, rapaz”, aponta o presidente do Clube do Choro, Reco do Bandolim.
Henrique Lima Santos Filho, jornalista e músico, foi carinhosamente apelidado pela família e, posteriormente, por todos como “Reco do Bandolim”. Baiano por natureza e brasiliense de alma e coração, que deu seus primeiros acordes numa guitarra interpretando clássicos do rock, descobriu o bandolim, instrumento com formato de pêra e costas abauladas, que possui 8 cordas agrupadas duas a duas, depois de ouvir Jacob Bitencourt e de ver Armandinho – cantor, instrumentista e compositor baiano – tocar. Quando assumiu a presidência do Clube do Choro, em 1993, o instrumentista encontrou o espaço, que na época era o vestiário do Centro de Convenções de Brasília, totalmente abandonado e habitado por mendigos. O seu primeiro trabalho, portanto, foi recuperar o local e transformá-lo numa escola de choro viva, tomando como exemplo o padrão das escolas de jazz e blues norte-americanas.
As dificuldades, no entanto, não pararam por aí. Por muitas vezes, o atual presidente investiu recursos próprios e tocou com o seu grupo insistentemente para que o clube não fosse despejado pelo Governo do Distrito Federal (GDF). Por esse motivo, Reco tornou-se a principal referência pela existência do Clube do Choro de Brasília.
No ano de 1995, Reco do Bandolim e Raphael Rabello, violonista brasileiro conhecido internacionalmente, iniciaram a elaboração do novo projeto do Clube do Choro. Infelizmente, Rabello não pôde dar continuidade ao trabalho já que, no mesmo ano, faleceu precocemente aos 32 anos de idade, vítima de contaminação do vírus HIV. Após muita dificuldade junto a órgãos do Ministério da Cultura, Reco do Bandolim, com o apoio de outros entusiastas, conseguiu em 1997, a aprovação do projeto. A Escola de Choro recebeu o nome de Raphael Rabello como forma de homenagem ao amigo e músico falecido.
Atualmente com 514 alunos, a Escola de Choro molda o seu tipo de ensino a partir do estudo de clássicos do gênero, tais como: Pixinguinha, Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim, entre outros. Nesse sentido, a proposta é fazer com que os alunos se sintam conhecedores das raízes da verdadeira música brasileira. “O choro aqui é bem mais reconhecido do que no próprio Rio de Janeiro”, orgulha-se o presidente.
O Clube do Choro da capital federal terá nova cara a partir do segundo semestre de 2009. O projeto assinado por Oscar Niemeyer prevê uma ampliação tanto das salas de aula quanto do espaço onde acontecem as apresentações e se chamará “Espaço Cultural do Choro”. O lugar pretende preservar o clima intimista de hoje, apesar de o espaço de shows ser ampliado de 300 para 450 lugares. De acordo com Reco, o palco baixo e o público próximo aos artistas da cidade “são a cara do clube” e isso será conservado.
Antes do início das apresentações, quem entra no Clube do Choro acredita que assistirá ao show com um pouco de dificuldade, como geralmente acontece por conta das conversas descontraídas das pessoas e de celulares que atrapalham a apreciação. Porém, quando Reco do Bandolim sobe ao palco, o silêncio se torna unânime. Ele faz questão de abrir os shows, o que torna a relação de proximidade entre o presidente da casa e o público muito forte. Reco pede silêncio nas aberturas e ressalta que “o prato principal do Clube do Choro é a música”. O público entende a proposta, mostra-se educado e aproveita cada segundo do ambiente aconchegante. Segundo o presidente, o Clube do Choro de Brasília é o único lugar que quando a música começa as pessoas se silenciam. A atenção da plateia realmente é voltada às apresentações. Não podia ser diferente, já que os banners, painéis e pinturas temáticas nas paredes valorizam a idéia intimista do ambiente. Mais que isso, o serviço de alimentação oferecido, composto pela mistura entre tira-gostos, caldos e cerveja, junto às mesas de madeira e pouca luz, compõem um clima aconchegante aos apreciadores dos chorões.
Todavia, esse clima familiar é sentido apenas no espaço reservado aos shows. As salas de aula são precárias e dificultam o aprendizado dos alunos. Segundo Caio Paiva, ex-aluno da escola, “os grandes problemas da estrutura atual são a precariedade do espaço-físico e a grande proximidade entre as salas de aula, o que dificulta a concentração”. Para ele, o que prende os alunos às aulas é a qualidade dos professores, o método de ensino, a troca de experiência entre as pessoas e a expectativa dos benefícios que a nova sede poderá trazer. Apesar dos problemas estruturais, o seu desligamento da escola aconteceu por falta de tempo. Mas ele confessa, “eu me sentiria mais motivado a arranjar tempo se tivéssemos uma estrutura melhor”. Em contrapartida, o ex-aluno destaca que uma vez por mês (aos sábados, impreterivelmente) os alunos fazem uma roda de choro. Nesse dia todos se reúnem para tocarem juntos e fazem uma roda com todos os instrumentos. “Esse é um momento de puro aprendizado e confraternização entre alunos e professores. A união entre as pessoas faz com que o clima seja de puro entusiasmo e alegria”, diz.
As obras que começaram em dezembro de 2008 darão lugar à nova sede, o Espaço Cultural do Choro, localizado no Setor de Difusão Cultural, no Eixo Monumental, ao lado de onde funciona o atual Clube do Choro. De acordo com Reco do Bandolim, o novo espaço terá o dobro de professores e alunos. “Temos, muitas vezes, que recusar inscrições porque o espaço é insuficiente”, afirma. Envolvido há anos com o Choro, Reco idealiza mudanças para a instituição, mas não quer perder a identidade do estabelecimento. “Nós procuramos abrir espaço para os talentos desconhecidos também. Eles mandam e-mails, vídeos e cd’s, nós selecionamos e cedemos o ambiente. Eu me sinto na responsabilidade de abrir espaço para quem não está na mídia”, ressalta.
O engenheiro civil Alexandre Betioli, responsável pela construção da nova sede do Clube do Choro, afirma que a obra está dentro do prazo – que segue até outubro deste ano. Segundo ele, o atual governador do DF, José Roberto Arruda, havia feito um pedido sobre a possibilidade de terminar a obra antes da data prevista, para que o novo espaço musical fosse inaugurado junto ao aniversário de 49 anos de Brasília, em abril de 2009. No entanto, não foi possível. De acordo com Betioli, “imprevistos encarecem e atrasam a obra”. “Tivemos problemas com a locação de terreno, interferências de árvores que não podiam ser retiradas, imprevistos como cisternas e até uma pista de dança que nós não esperávamos que existisse”, completa. De todo modo, a inauguração do espaço deverá acontecer no próximo aniversário de Brasília, em 2010, quando a cidade completará 50 anos.
Pelo fato de o Clube do Choro ser um local familiar, existe o medo de que com a nova sede, maior e melhor dividida, o espaço se transforme em uma sala de espetáculos. Caio Paiva, no entanto, não acredita nessa possibilidade. “A nova sede só melhorará a relação entre aluno e professor. O que faz o clube do choro ser um local intimista são as pessoas e não a estrutura”, comenta.
O espaço que atualmente é utilizado como sala de aula será transformado em luteria, ou seja, local destinado à fabricação e conserto de instrumentos. Dessa maneira, o ensino será ainda mais completo, tendo em vista que o aluno terá a oportunidade de acompanhar o processo do início ao fim – da fabricação à especialização.
A grande novidade é que o Clube do Choro já possui um acordo firmado com a Universidade de Brasília que visa inaugurar o primeiro Curso Superior em Choro do Brasil (Faculdade de Música – UnB). De acordo com Reco, “as conversas” já estão bem adiantadas. A notícia beneficiará as pessoas que desejam obter conhecimento mais aprofundado sobre o estilo musical, já que contará com cerca de quatro semestres cursados no próprio Espaço Cultural do Choro, com extensão na UnB.
“Os maiores músicos do Brasil pedem para tocar aqui”, envaidece-se Reco do Bandolim. Por outro lado, o mais encantador é que músicos pouco conhecidos da capital do rock despontam tocando chorinho. Como exemplo de sucesso, o presidente destaca o Trio Cai Dentro, formado pelos jovens Henrique Neto (violão de sete cordas), Rafael dos Anjos (violão de seis cordas) e Márcio Marinho (cavaquinho), que também são professores da escola. Instituições sérias que ensinam choro modificam a imagem do país. “Em qualquer lugar que você chega, as pessoas babam pela música brasileira”, declara.
Uma biografia que retratasse com fidelidade o que é o Clube do Choro de Brasília certamente teria em seu conteúdo várias passagens de sucesso que a mídia brasileira, até então, não enxergou como talento em potencial. “O marketing é muito perverso. Existe muito lixo musical produzido que ocupa o espaço de pessoas que têm talento”, conclui aquele que transformou um velho vestiário em um ambiente altamente criativo.
| Para maiores esclarecimentos, ligue: (61) 3225-2761 |
| Para conhecer o regulamento da Escola de Choro Raphael Rabello e obter informações sobre os cursos oferecidos, acesse: www.clubedochoro.com.br |

Planta baixa do Espaço Cultural do Choro.

Salas de aula do atual Clube do Choro.

Andamento das obras do Espaço Cultural do Choro em junho/2009.

Andamento das obras do Espaço Cultural do Choro em junho/2009.

A arquitetura da nova sede favorecerá a acústica e distribuirá melhor o espaço.